Quando a gente é criança, o mundo está bem dividido entre o bem e o mal. As histórias infantis são uma prova disso: está explícito quem é o personagem vilão e quem é do bem. Anti-heróis não fazem a cabeça da criançada. Personagens com moral complexa são confusos e difíceis de serem entendidos.
O que se espera é que com o desenvolvimento emocional e cognitivo a gente vá percebendo que bem e mal não são polaridades incompatíveis, mas convivem dentro de todos nós, compreende? Ter a certeza disso nos ajuda em nossas relações, pois relativiza as coisas, e ninguém, no fundo, é dono de verdade alguma.
Por isso, esses discursos tão comuns que vemos por aí de “eles contra mim” carregam certa dose de desconfiança. Porque acreditar que possuo a verdade sobre as coisas e achar que tudo que se pensa diferente é contra mim, ou que são burros, do mal, ou conservadores, ou progressistas... Aí fica tudo engessado. E a vida, que é fluida em sua essência, tende a fissurar com tantos gessos.
Aí vai uma metáfora, que pode parecer bobinha, mas... vá lá. Já repararam em uma ponte? È sempre grande, imponente, recebe cargas pesadíssimas. Pra isso tem uma estrutura forte, de concreto. Mas toda ponte, toda estrutura que recebe cargas, precisa ser flexível, senão racha. Nunca sentiu o balanço do carro quando se está estacionado em uma delas?
Pois bem, a flexibilidade da ponte é a nossa dúvida, é dar a nós sempre a possibilidade de estarmos enganados, ou de, pelo menos, haver outras certezas que podem ser levadas em consideração.
Gianetti (autor de O valor do amanhã e Auto-engano) diz que toda dúvida é mais fértil do que qualquer certeza. Concordo. Então, quando olho para o meu ponto de vista como apenas o que ele é: um ponto de vista, eu deixo de ver um mundo de uma forma dicotômica, e passo a valorizar o outro e suas idéias, porque sempre posso aprender e ensinar – acho que a essência da fluidez da vida tá aí. E tiro dos ombros o peso da certeza infértil de ser o certo.
O bom debate de idéias é fantástico! Ter um discurso apaixonado dá sustentação à nossa existência. Então, amigos, o benefício da dúvida não é tornar cada um na sua e o mundo bege; típico sonho de consumo do pensamento individualista. Mas é considerar que a contradição reside em nós, e é na abertura para o jogo de idéias que a gente se transforma, e não na tentativa vã de ganhar a discussão - "e disutir por discutir, só pra ganhar a discussão".
Ah! E nem mesmo este texto (ou melhor, principalmente este texto) é dono de verdade alguma, viu?
