sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O CARNAVAL NOSSO DE CADA DIA


Esses dias, ouvi um comentário sobre o arrastão que acontece na quarta-feira de cinzas puxado por Carlinhos Brown. Alguém disse: "é tranquilo o arrastão porque o povo respeita Carlinhos." Pensei justamente o contrário: "é tranquilo porque Carlinhos respeita o povo, porque não há cordas. Não há um "nós" e os "outros"."

Não sou fã de carnaval, nunca fui. Talvez porque só tenha conhecido em minha infância e toda adolescência o carnaval de trio, de blocos e de sempre violência, confusão, aperto. Nunca achei graça nisso. Um dia, conheci o carnaval de Recife e Olinda e entendi o que era "brincar" o carnaval. Gente fantasiada (de todas as idades), pistolinhas d'água, o espírito brincalhão de fazer rir quem está por perto, pregar sustos e logo depois sorrisos. Confete e serpentina! Foi muito bacana fazer parte daquela festa. 

Volto a Salvador. Os trios elétricos mudaram a história do carnaval daqui. Entendo que é legal ir atrás do trio, mas é inegável que esses grandes caminhões musicais têm um efeito deletério sobre todas as outras possíveis atrações animadas apenas pela força do sopro e do bater de tambores. O trio arrasta a multidão e empurra pra fora do circuito as fanfarras, os bloquinhos, os caretas, os confetes... Não há espaço sonoro, ninguém se ouve (não precisa falar é só agarrar e beijar).


 
O antropólogo Roberto da Matta escreveu que a essência do carnaval é a possibilidade de inversão de papéis: o pobre que se fantasia de rei, o rico que se fantasia de mendigo, extra-terrestre... É a possibilidade de nos dias regidos por Momo desconstruirmos a lógica social estabelecida. Então o que vemos em Salvador é justamente o contrário disso. É e mesma elite-soteropolitana-que-se-acha-rica ocupando os mesmos lugares de destaque e privilégio (camarotes, blocos protegidos do povo-perigoso-sujo) e, claro, o que vai se reproduzir numa festa como essa é a mesma violência produzida pela desigualdade do nosso cotidiano.

Nossa vida é igualzinha ao carnaval: a elite-soteropolitana-que-se-acha-rica pendurada em seus edifícios, circulando de carros com películas, indo a shopping centers e exigindo mais ruas e viadutos. A vida encapsulada buscando segurança. Andar na rua só quando se vai para o exterior.  Bairro rico é sinônimo de ruas limpas, silenciosas... e vazias! Ninguém sai à pé porque é perigoso, mas o bairro é nobre (!). E com isso o coletivo da nossa cidade se esvai pelos bueiros. As pessoas não querem uma cidade melhor (só um trânsito melhor), querem apenas o seu paraíso particular nos condomínios clubes, cheio de gente de "bem". A vida só entre iguais gera um medo absurdo do que seja diferente e perde-se completamente os parâmetros do que é realmente uma ameaça ou não.

E o centro da cidade, um lugar cheio de história e cultura, fica completamente abandonado, decadente. A rua é do povo, do pobre; transporte de massa é para pobre que, desconhecendo seus direitos, não consegue se organizar para exigir melhorias. Salvador é uma cidade dividida e vazia. Classe-média-que-acha-que-é-rica não quer direitos iguais, quer privilégios. E o carnaval soteropolitano é um reflexo dessa compreensão distorcida do que seja a vida coletiva na cidade.

Sim, claro, não é só aqui. Mas falo do lugar de onde moro, onde vejo, todos os dias, a decadência progressiva de sorriso banguela. É um problema de todos nós.

Para não dizer que não falei de flores (ou confetes), fui ao carnaval do Pelourinho. E lá avistei o Recife. Ótima programação, fantasias, fanfarras, diversidade, crianças, velhinho, alegria, pistolinha d'água! Todos tratados com respeito, todos se respeitando e nem precisa ser o Carlinhos Brown!




terça-feira, 30 de abril de 2013

O Benefício da Dúvida

Quando a gente é criança, o mundo está bem dividido entre o bem e o mal. As histórias infantis são uma prova disso: está explícito quem é o personagem vilão e quem é do bem. Anti-heróis não fazem a cabeça da criançada. Personagens com moral complexa são confusos e difíceis de serem entendidos.

O que se espera é que com o desenvolvimento emocional e cognitivo a gente vá percebendo que bem e mal não são polaridades incompatíveis, mas convivem dentro de todos nós, compreende? Ter a certeza disso nos ajuda em nossas relações, pois relativiza as coisas, e ninguém, no fundo, é dono de verdade alguma.

Por isso, esses discursos tão comuns que vemos por aí de “eles contra mim” carregam certa dose de desconfiança. Porque acreditar que possuo a verdade sobre as coisas e achar que tudo que se pensa diferente é contra mim, ou que são burros, do mal, ou conservadores, ou progressistas... Aí fica tudo engessado. E a vida, que é fluida em sua essência, tende a fissurar com tantos gessos.

Aí vai uma metáfora, que pode parecer bobinha, mas... vá lá. Já repararam em uma ponte? È sempre grande, imponente, recebe cargas pesadíssimas. Pra isso tem uma estrutura forte, de concreto. Mas toda ponte, toda estrutura que recebe cargas, precisa ser flexível, senão racha. Nunca sentiu o balanço do carro quando se está estacionado em uma delas?

Pois bem, a flexibilidade da ponte é a nossa dúvida, é dar a nós sempre a possibilidade de estarmos enganados, ou de, pelo menos, haver outras certezas que podem ser levadas em consideração.

Gianetti (autor de O valor do amanhã e Auto-engano) diz que toda dúvida é mais fértil do que qualquer certeza. Concordo. Então, quando olho para o meu ponto de vista como apenas o que ele é: um ponto de vista, eu deixo de ver um mundo de uma forma dicotômica, e passo a valorizar o outro e suas idéias, porque sempre posso aprender e ensinar – acho que a essência da fluidez da vida tá aí. E tiro dos ombros o peso da certeza infértil de ser o certo.



O bom debate de idéias é fantástico! Ter um discurso apaixonado dá sustentação à nossa existência. Então, amigos, o benefício da dúvida não é tornar cada um na sua e o mundo bege; típico sonho de consumo do pensamento individualista. Mas é considerar que a contradição reside em nós, e é na abertura para o jogo de idéias que a gente se transforma, e não na tentativa vã de ganhar a discussão - "e disutir por discutir, só pra ganhar a discussão".

Ah! E nem mesmo este texto (ou melhor, principalmente este texto) é dono de verdade alguma, viu?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

domingo, 23 de dezembro de 2012

Sobre cães, príncipes e natais

Estava aqui pensando num texto pra escrever nesse clima de fim de ano - tempo que sempre nos leva, carregados pela emoção que contagia, a fazer uma reflexão sobre a vida, sobre as coisas que importam. Mas aí uma história real chegou aos meus ouvidos, e pronto: imediatamente virou tema para o que eu estava pensando em dizer. Soube que ontem, então dois dias antes do Natal, uma senhora adentra uma clínica veterinária com um cachorro na mão dizendo que precisa sacrificá-lo, pois está doente. O médico veterinário, preocupado com a situação, vai examinar o cãozinho e... constata que ele não tem nada, que não está doente. Conversa vai, conversa vem, não demorou muito pra ele entender a situação. A senhora tinha comprado um outro cachorro, mais novo - talvez de uma "marca" que ela julgasse melhor - e o cãozinho antigo, claro, agora não tinha mais serventia. Ela queria se livrar dele, pra poder melhor curtir sua novidade.

A atitude dessa mulher é um exemplo do modo de vida que estamos gestando pra nós. É a sociedade do consumo, do desejo constante, pela busca do sempre mais e melhor. As pessoas nem sabem ao certo o que buscam, o que querem, estão escravas da sensação de frisson que um novo produto pode dar. E a sensação, como uma droga qualquer, se esvai rapidamente, para dar lugar, obviamente, a um novo desejo que mais uma vez se tornará velho e obsoleto no exato instante em que for satisfeito. No caso acima, o cachorro (apesar de ser um ser vivo) é também encarado e visto como um produto de consumo. É chocante isso, mas mais triste ainda é perceber que o caso dessa mulher não é uma exceção; é a regra.

Na sociedade de consumo, a gente não se dá conta o quanto vamos, aos poucos, tecendo relações mercadológicas com tudo e com todos. Todos agem em busca do lucro em tudo. Faço uma coisa para obter que lucro, que vantagem? As relações amorosas estão sendo o tempo todo colocadas na balança, para se pesar o quanto se dá e o quanto se recebe de volta. A sensação é de que a vida vai entrando num racionalismo que se expandiu das finanças para todos as outras esferas do ser. Todo ato em nome de si próprio (que não seja um crime previsto em lei, claro) é sempre tomado como justificável. 

Bom, a causa dessa forma consumista da vida pode ser creditada ao sistema mercantil que domina o mundo: o capitalismo. Tá, é verdade, o capitalismo e o individualismo andam de mãos dadas, se retroalimentam. No entanto, ele não foi um sistema de troca pensado por uma minoria para dominar o mundo (ouviram, Pink e Cérebro?). Quando olhamos pro capitalismo, pro individualismo atroz, vemos que eles foram fruto da maré da história, da história humana. Ninguém pensou, foi simplesmente acontecendo. É que nós somos assim, e nos refletimos nessas coisas todas que inventamos. Mas, se tudo pode ser substituído, se tudo é descartável, qual o nosso  próprio valor?

O perigo dessa vida de consumo é nos afastar de coisas que parecem realmente dar a sustentação para a nossa existência: a amizade, o altruismo, o sabor das relações humanas de verdade, a disponibilidade... É isso que pode realmente nos fazer companhia na jornada da vida. Mas comumente têm se tornado peças raras, ou facilmente substituíveis pela galera da vez, pelos próprio assuntos e desejos pessoais, pelo mais bonito.

A história do cãozinho me fez lembrar as sábias palavras de um princepezinho: que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E talvez a humanidade esteja sofrendo da falta de comprometimento com o amor, com o afeto. E vamos deixando as coisas pelo caminho.



O final da história é feliz: o veterinário, claro, não só não o sacrificou como está comprometido em fazer o cão acreditar que confiar na humanidade ainda vale a pena. Vamos lá! Vamos desejar um Natal com mais afeto, com mais "veterinários" que deixem um princepezinho, em seu planeta, cheio de orgulho.

Um Feliz Natal e que façamos um Ano Novo sempre melhor!


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Tanto barulho, por quê?

Silêncio... o mundo anda tão barulhento... ou talvez seja só na minha rua. O fato é que parece que está tudo demais. Sonhos demais, palavras demais, risadas demais... Tudo tem que ser up, pra cima, alto astral. Ultimamente essa intolerância humana para o down (que não é download!) está ficando cansativa. Fotos sorridentes no facebook, projetos, especializações, corrida, viagens de gruppon... Ufa... E onde está de verdade a disponibilidade para aquilo que realmente importa, que realmente enriquece a nossa existência? Alguém pode me escutar nesse barulho todo?


De um modo geral, em meio a tantos amigos e baladas do momento, as pessoas se queixam muito ou temem se deparar de frente com a solidão. Então aceleram a vida, é tudo rápido, divertido sempre, tudo preenchido para não encarar o vazio - lo sinto... ele é inerente a toda existência humana.

E penso que o que nos dá conforto, que torna a vida se não mais feliz, com certeza mais interessante, são conversas onde se ouve e se é ouvido com interesse, abraço apertado, um olhar de compreensão, um silêncio cheio de significado, mãos dadas... É a história que construímos com as pessoas que nos são caras. E, sim, nessa corrida desenfrada acaba faltando disponibilidade pra isso. Porque estar presente não é o mesmo que dar uma curtida no facebook, não. Gente precisa de mais. Precisa de toque, de sentir gosto de vinho na boca e cheiro de comida no fogão, precisa de papo para além de 140 caracteres.

Parece que a Pat Pimentinha tem razão: "Testes pra fazer, redação pra escrever... coisas bobas! Não há  tempo para o amor, Menduim!"




PS: Se quiser ver o desenho completo de onde retirei a frase... está aqui:

There's no time for love, Charlie Brown!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mais do mesmo

Pois é... no último post eu falei sobre essa onda de piadas e agressividade que vemos por aí, que está se tornando um hábito cada vez mais comum. Aí, só para engrossar os exemplos, me deparo hoje com a notícia de que a cantora inglesa Adéle, logo depois de dar à luz, recebeu uma série de ataques maldosos no twitter! As pérolas ditas foram do tipo: "Adele deu à luz um bebê. Deve ser gordo e deficiente. Vamos assassiná-lo já!", postado pela usuária Vanessa Bieber. Tem o que comentar diante disso? Fico sem palavras. Que agressividade gratuita é essa, minha gente? Quer dizer que quando se tem a certeza do anonimato, a vileza humana se espalha?


A internet é uma ferramenta maravilhosa, que descortina o mundo, que aproxima pessoas... Na internet vemos a solidariedade se manifestar no compartilhamento de informações, nas respostas a perguntas, na disponibilidade para auxiliar o outro; outro que na grande maioria das vezes nem se faz idéia de quem seja. E tudo isso sem ganhar necessariamente nada em troca. É só pensar por exemplo em todas as wiki, sendo a mais famosa a wikipedia, onde um cem número de pessoas postam informações sobre os mais variados temas, no exercício de doar, no prazer de compartilhar simplesmente.

Então, não...a culpa não é da informática, mas do que somos capazes de fazer com ela. E aí, o humano em nós é capaz de cada coisa... O mais paradoxal de tudo isso é o uso do anonimato para querer se tornar público. E não consigo parar de pensar na quantidade de pessoas que acham graça de tamanha violência. 

É só dar uma volta nos blogs por aí que vemos os mais agressivos e bizarros comentários. Às vezes me parece que as pessoas andam procurando qualquer motivo, qualquer bobagem, para agredir qualquer um com palavras, e com a proteção da identidade escondida. Já vi gente entrando em blog temático para criticar a escolha do tema... Oi? Se o tema não interessa, então entrou pra ler por quê? Impossível não achar que tenha sido pelo puro prazer de ofender.   

Psicólogos têm estudado o fenômeno do quanto nos comportamos de forma diferente em grupo, como agimos de forma muitas vezes mais  violenta. É um fenômeno em que o todo se mostra maior que a soma das partes. Disperso no meio da massa humana, as pessoas são levadas a fazerem atos talvez impensáveis se estivessem sozinhas. Nessa onda, cabe estudar essa ferocidade que pulsa na net que, no fundo, talvez mostre a intolerância a que estamos submetidos entre os seres sociais, democráticos e bem resolvidos.

Desculpe, mas certos comentários e tantas palavras têm me deixado muda.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ser Horácio na vida

Poww... se tem uma coisa que não gosto nessa moda de rede social, e todo mundo virar meio comentarista de tudo, é a piada com a dor ou sofrimento do outro. Gosto não... não acho a menor graça e chego a me irritar. Se isso é sinal de ser ranzinza, então tô lá no início da fila do “ranzinismo”. Não rio em público daquilo que não me faz rir sozinha (obrigada pela inspiração e clareza das palavras, Clarice Lispector).

Nas últimas semanas choveu piadas sobre Amy Winehouse, o massacre do cinema no filme do Batman... Tenho medo de onde a gente vai parar se começarmos a fazer concessões de sorrisos ao piadista imbecil do momento. Quem tem que se constranger é quem faz a piada, e não a vítima da violência. Se a gente ri, se leva adiante uma fofoca, estamos ajudando a construir que tipos de relações entre nós? A princípio, todos concordam com isso, não é? Mas não raro vemos os bacanas dando risinhos de canto de boca, extasiados diante da tela de seus facebooks. Porque o que não falta é gente por aí que se acha bacana, que acha que faz o que pode. Não. A gente tem que fazer mais do que acha que pode, porque a gente pode mais.

Não somos seres perfeitos, é certo, mas pra algumas coisas a gente tem que ficar atento sim. E isso não tem nada a ver com a onda do politicamente correto estéril que tomou conta do Brasil. Mesmo porque as pessoas que se indignam diante de um humor sem jeito e mal feito costumam ser as mesmas que se juntam para criticar, julgar a roupa de fulano, o jeito de beltrano... Ai... como o mundo fica chatinho com esse tipo de atitude.

Estou falando da gente ser mais amoroso em nossas relações, mais cuidadoso, sem ter que levantar bandeira do Bem, sabe? Sem ter que fazer disso uma promoção pessoal, uma vantagem na personalidade. Sem ter que se achar um ser especialíssimo e perfeito por isso.

Pra essa discussão, impossível não me vir à mente o personagem de Maurício de Sousa, o Horácio. Ele é um Tyrannossaurus rex e, no entanto, é também gentil, amigo, preocupado em auxiliar o próximo, cheio de divagações filosóficas, que não ri quando alguém cai. Pois é... e olha que Horácio é um dinossauro, um réptil sem córtex cerebral desenvolvido, fazendo, como disse Saramago (não sobre Horácio, mas sobre os animais de um modo geral), melhor com os seus instintos do que nós com a nossa inteligência.


Está aí um grande aprendizado para nós seres humanos: parar de rir de alguém, para perceber o divertido que é rir com alguém. Sei lá, quem sabe assim a gente pode deixar o mundo mais acolhedor.

Então, pra começar, vamos baixar uma regra: se não tem palavras doces pra dizer, pra que ferir?

Valeu, Horácio!