“Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida...” É assim que começa o “Poema em Linha Reta ” de Fernando Pessoa. O poeta português, com a delicadeza que lhe é peculiar, nos lembra da vaidade humana, da auto-afirmação pela máscara da perfeição, da soberba humana que se apodera daqueles que seguem as etiquetas, os reis do marketing pessoal e da promoção da vida feliz.
Numa conversa despretensiosa com qualquer conhecido, logo vemos esses indícios nos discursos sobre os filhos perfeitos e bem resolvidos, sobre qualidades intelectuais, sobre como se é politicamente correto, ético, preocupado e antenado com todos os problemas sociais, ecológicos... Na academia o papo é o mesmo. Todos seguem as regras, tomam suplementos, seguem uma dieta... Afff, quanta gente perfeita nesse mundo! Resta saber se ainda sabem apreciar o sabor das coisas, se ainda vêem uma mesa como um momento de conversa, de confraternização, de satisfação.
Nas empresas é a mesma coisa. Quantas e quantas vezes não vemos ou ouvimos as constantes declarações de virtudes? Os discursos são sempre de auto-exaltação sobre como somos bacanas, comprometidos, sobre como deixamos os problemas pessoais do lado de fora (de fora de onde?)... Aí, no final das contas, o erro fica sendo sempre do outro. Facilmente julgamos, sabemos a resposta óbvia para uma conduta de outro setor, falamos com segurança do que não conhecemos, criticamos e obtemos logo a aprovação dos tantos outros perfeitos. É incrível como todos falam de um pedestal falso de sabedoria sem nem conhecer os reais problemas e dificuldades dos colegas. É que para os perfeitos, os que nunca levaram porrada na vida, todo mundo que não pensa como ele é, obviamente, um imbecil – se não de todo, pelo menos em algum aspecto.
O problema de tanta assepsia ética é que nos tornamos menos humanos, menos acessível para o encontro genuíno com o outro e para uma vivência mais autêntica de nós mesmos. Pois a vida de verdade não segue uma linha reta, ela é feita de vitórias e fracassos, erros e acertos, somos também mesquinhos, medrosos, inseguros, ciumentos, fracos... somos humanos. E é nessa humanidade que nos encontramos mais, que sentimos mais o valor do amor, da gentileza, que somos acolhidos, e recebemos o abraço inigualável do perdão.
Teorias psicoterápicas têm atentado para o perigo da crença na vida perfeita. Não há regra geral, o melhor caminho é olhar pra dentro de si, descobrir quem se é; erros e virtudes. Se conhecer, sem máscaras, é o passo de qualquer mudança que se queira fazer.
Não, Pessoa, você não é o único ridículo, vil e errôneo nesta terra.

