domingo, 23 de dezembro de 2012

Sobre cães, príncipes e natais

Estava aqui pensando num texto pra escrever nesse clima de fim de ano - tempo que sempre nos leva, carregados pela emoção que contagia, a fazer uma reflexão sobre a vida, sobre as coisas que importam. Mas aí uma história real chegou aos meus ouvidos, e pronto: imediatamente virou tema para o que eu estava pensando em dizer. Soube que ontem, então dois dias antes do Natal, uma senhora adentra uma clínica veterinária com um cachorro na mão dizendo que precisa sacrificá-lo, pois está doente. O médico veterinário, preocupado com a situação, vai examinar o cãozinho e... constata que ele não tem nada, que não está doente. Conversa vai, conversa vem, não demorou muito pra ele entender a situação. A senhora tinha comprado um outro cachorro, mais novo - talvez de uma "marca" que ela julgasse melhor - e o cãozinho antigo, claro, agora não tinha mais serventia. Ela queria se livrar dele, pra poder melhor curtir sua novidade.

A atitude dessa mulher é um exemplo do modo de vida que estamos gestando pra nós. É a sociedade do consumo, do desejo constante, pela busca do sempre mais e melhor. As pessoas nem sabem ao certo o que buscam, o que querem, estão escravas da sensação de frisson que um novo produto pode dar. E a sensação, como uma droga qualquer, se esvai rapidamente, para dar lugar, obviamente, a um novo desejo que mais uma vez se tornará velho e obsoleto no exato instante em que for satisfeito. No caso acima, o cachorro (apesar de ser um ser vivo) é também encarado e visto como um produto de consumo. É chocante isso, mas mais triste ainda é perceber que o caso dessa mulher não é uma exceção; é a regra.

Na sociedade de consumo, a gente não se dá conta o quanto vamos, aos poucos, tecendo relações mercadológicas com tudo e com todos. Todos agem em busca do lucro em tudo. Faço uma coisa para obter que lucro, que vantagem? As relações amorosas estão sendo o tempo todo colocadas na balança, para se pesar o quanto se dá e o quanto se recebe de volta. A sensação é de que a vida vai entrando num racionalismo que se expandiu das finanças para todos as outras esferas do ser. Todo ato em nome de si próprio (que não seja um crime previsto em lei, claro) é sempre tomado como justificável. 

Bom, a causa dessa forma consumista da vida pode ser creditada ao sistema mercantil que domina o mundo: o capitalismo. Tá, é verdade, o capitalismo e o individualismo andam de mãos dadas, se retroalimentam. No entanto, ele não foi um sistema de troca pensado por uma minoria para dominar o mundo (ouviram, Pink e Cérebro?). Quando olhamos pro capitalismo, pro individualismo atroz, vemos que eles foram fruto da maré da história, da história humana. Ninguém pensou, foi simplesmente acontecendo. É que nós somos assim, e nos refletimos nessas coisas todas que inventamos. Mas, se tudo pode ser substituído, se tudo é descartável, qual o nosso  próprio valor?

O perigo dessa vida de consumo é nos afastar de coisas que parecem realmente dar a sustentação para a nossa existência: a amizade, o altruismo, o sabor das relações humanas de verdade, a disponibilidade... É isso que pode realmente nos fazer companhia na jornada da vida. Mas comumente têm se tornado peças raras, ou facilmente substituíveis pela galera da vez, pelos próprio assuntos e desejos pessoais, pelo mais bonito.

A história do cãozinho me fez lembrar as sábias palavras de um princepezinho: que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E talvez a humanidade esteja sofrendo da falta de comprometimento com o amor, com o afeto. E vamos deixando as coisas pelo caminho.



O final da história é feliz: o veterinário, claro, não só não o sacrificou como está comprometido em fazer o cão acreditar que confiar na humanidade ainda vale a pena. Vamos lá! Vamos desejar um Natal com mais afeto, com mais "veterinários" que deixem um princepezinho, em seu planeta, cheio de orgulho.

Um Feliz Natal e que façamos um Ano Novo sempre melhor!


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Tanto barulho, por quê?

Silêncio... o mundo anda tão barulhento... ou talvez seja só na minha rua. O fato é que parece que está tudo demais. Sonhos demais, palavras demais, risadas demais... Tudo tem que ser up, pra cima, alto astral. Ultimamente essa intolerância humana para o down (que não é download!) está ficando cansativa. Fotos sorridentes no facebook, projetos, especializações, corrida, viagens de gruppon... Ufa... E onde está de verdade a disponibilidade para aquilo que realmente importa, que realmente enriquece a nossa existência? Alguém pode me escutar nesse barulho todo?


De um modo geral, em meio a tantos amigos e baladas do momento, as pessoas se queixam muito ou temem se deparar de frente com a solidão. Então aceleram a vida, é tudo rápido, divertido sempre, tudo preenchido para não encarar o vazio - lo sinto... ele é inerente a toda existência humana.

E penso que o que nos dá conforto, que torna a vida se não mais feliz, com certeza mais interessante, são conversas onde se ouve e se é ouvido com interesse, abraço apertado, um olhar de compreensão, um silêncio cheio de significado, mãos dadas... É a história que construímos com as pessoas que nos são caras. E, sim, nessa corrida desenfrada acaba faltando disponibilidade pra isso. Porque estar presente não é o mesmo que dar uma curtida no facebook, não. Gente precisa de mais. Precisa de toque, de sentir gosto de vinho na boca e cheiro de comida no fogão, precisa de papo para além de 140 caracteres.

Parece que a Pat Pimentinha tem razão: "Testes pra fazer, redação pra escrever... coisas bobas! Não há  tempo para o amor, Menduim!"




PS: Se quiser ver o desenho completo de onde retirei a frase... está aqui:

There's no time for love, Charlie Brown!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mais do mesmo

Pois é... no último post eu falei sobre essa onda de piadas e agressividade que vemos por aí, que está se tornando um hábito cada vez mais comum. Aí, só para engrossar os exemplos, me deparo hoje com a notícia de que a cantora inglesa Adéle, logo depois de dar à luz, recebeu uma série de ataques maldosos no twitter! As pérolas ditas foram do tipo: "Adele deu à luz um bebê. Deve ser gordo e deficiente. Vamos assassiná-lo já!", postado pela usuária Vanessa Bieber. Tem o que comentar diante disso? Fico sem palavras. Que agressividade gratuita é essa, minha gente? Quer dizer que quando se tem a certeza do anonimato, a vileza humana se espalha?


A internet é uma ferramenta maravilhosa, que descortina o mundo, que aproxima pessoas... Na internet vemos a solidariedade se manifestar no compartilhamento de informações, nas respostas a perguntas, na disponibilidade para auxiliar o outro; outro que na grande maioria das vezes nem se faz idéia de quem seja. E tudo isso sem ganhar necessariamente nada em troca. É só pensar por exemplo em todas as wiki, sendo a mais famosa a wikipedia, onde um cem número de pessoas postam informações sobre os mais variados temas, no exercício de doar, no prazer de compartilhar simplesmente.

Então, não...a culpa não é da informática, mas do que somos capazes de fazer com ela. E aí, o humano em nós é capaz de cada coisa... O mais paradoxal de tudo isso é o uso do anonimato para querer se tornar público. E não consigo parar de pensar na quantidade de pessoas que acham graça de tamanha violência. 

É só dar uma volta nos blogs por aí que vemos os mais agressivos e bizarros comentários. Às vezes me parece que as pessoas andam procurando qualquer motivo, qualquer bobagem, para agredir qualquer um com palavras, e com a proteção da identidade escondida. Já vi gente entrando em blog temático para criticar a escolha do tema... Oi? Se o tema não interessa, então entrou pra ler por quê? Impossível não achar que tenha sido pelo puro prazer de ofender.   

Psicólogos têm estudado o fenômeno do quanto nos comportamos de forma diferente em grupo, como agimos de forma muitas vezes mais  violenta. É um fenômeno em que o todo se mostra maior que a soma das partes. Disperso no meio da massa humana, as pessoas são levadas a fazerem atos talvez impensáveis se estivessem sozinhas. Nessa onda, cabe estudar essa ferocidade que pulsa na net que, no fundo, talvez mostre a intolerância a que estamos submetidos entre os seres sociais, democráticos e bem resolvidos.

Desculpe, mas certos comentários e tantas palavras têm me deixado muda.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ser Horácio na vida

Poww... se tem uma coisa que não gosto nessa moda de rede social, e todo mundo virar meio comentarista de tudo, é a piada com a dor ou sofrimento do outro. Gosto não... não acho a menor graça e chego a me irritar. Se isso é sinal de ser ranzinza, então tô lá no início da fila do “ranzinismo”. Não rio em público daquilo que não me faz rir sozinha (obrigada pela inspiração e clareza das palavras, Clarice Lispector).

Nas últimas semanas choveu piadas sobre Amy Winehouse, o massacre do cinema no filme do Batman... Tenho medo de onde a gente vai parar se começarmos a fazer concessões de sorrisos ao piadista imbecil do momento. Quem tem que se constranger é quem faz a piada, e não a vítima da violência. Se a gente ri, se leva adiante uma fofoca, estamos ajudando a construir que tipos de relações entre nós? A princípio, todos concordam com isso, não é? Mas não raro vemos os bacanas dando risinhos de canto de boca, extasiados diante da tela de seus facebooks. Porque o que não falta é gente por aí que se acha bacana, que acha que faz o que pode. Não. A gente tem que fazer mais do que acha que pode, porque a gente pode mais.

Não somos seres perfeitos, é certo, mas pra algumas coisas a gente tem que ficar atento sim. E isso não tem nada a ver com a onda do politicamente correto estéril que tomou conta do Brasil. Mesmo porque as pessoas que se indignam diante de um humor sem jeito e mal feito costumam ser as mesmas que se juntam para criticar, julgar a roupa de fulano, o jeito de beltrano... Ai... como o mundo fica chatinho com esse tipo de atitude.

Estou falando da gente ser mais amoroso em nossas relações, mais cuidadoso, sem ter que levantar bandeira do Bem, sabe? Sem ter que fazer disso uma promoção pessoal, uma vantagem na personalidade. Sem ter que se achar um ser especialíssimo e perfeito por isso.

Pra essa discussão, impossível não me vir à mente o personagem de Maurício de Sousa, o Horácio. Ele é um Tyrannossaurus rex e, no entanto, é também gentil, amigo, preocupado em auxiliar o próximo, cheio de divagações filosóficas, que não ri quando alguém cai. Pois é... e olha que Horácio é um dinossauro, um réptil sem córtex cerebral desenvolvido, fazendo, como disse Saramago (não sobre Horácio, mas sobre os animais de um modo geral), melhor com os seus instintos do que nós com a nossa inteligência.


Está aí um grande aprendizado para nós seres humanos: parar de rir de alguém, para perceber o divertido que é rir com alguém. Sei lá, quem sabe assim a gente pode deixar o mundo mais acolhedor.

Então, pra começar, vamos baixar uma regra: se não tem palavras doces pra dizer, pra que ferir?

Valeu, Horácio!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Vida em Linha Reta

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida...” É assim que começa o “Poema em Linha Reta” de Fernando Pessoa. O poeta português, com a delicadeza que lhe é peculiar, nos lembra da vaidade humana, da auto-afirmação pela máscara da perfeição, da soberba humana que se apodera daqueles que seguem as etiquetas, os reis do marketing pessoal e da promoção da vida feliz.
  
Numa conversa despretensiosa com qualquer conhecido, logo vemos esses indícios nos discursos sobre os filhos perfeitos e bem resolvidos, sobre qualidades intelectuais, sobre como se é politicamente correto, ético, preocupado e antenado com todos os problemas sociais, ecológicos... Na academia o papo é o mesmo. Todos seguem as regras, tomam suplementos, seguem uma dieta... Afff, quanta gente perfeita nesse mundo! Resta saber se ainda sabem apreciar o sabor das coisas, se ainda vêem uma mesa como um momento de conversa, de confraternização, de satisfação.

Nas empresas é a mesma coisa. Quantas e quantas vezes não vemos ou ouvimos as constantes declarações de virtudes? Os discursos são sempre de auto-exaltação sobre como somos bacanas, comprometidos, sobre como deixamos os problemas pessoais do lado de fora (de fora de onde?)... Aí, no final das contas, o erro fica sendo sempre do outro. Facilmente julgamos, sabemos a resposta óbvia para uma conduta de outro setor, falamos com segurança do que não conhecemos, criticamos e obtemos logo a aprovação dos tantos outros perfeitos. É incrível como todos falam de um pedestal falso de sabedoria sem nem conhecer os reais problemas e dificuldades dos colegas. É que para os perfeitos, os que nunca levaram porrada na vida, todo mundo que não pensa como ele é, obviamente, um imbecil – se não de todo, pelo menos em algum aspecto.

O problema de tanta assepsia ética é que nos tornamos menos humanos, menos acessível para o encontro genuíno com o outro e para uma vivência mais autêntica de nós mesmos. Pois a vida de verdade não segue uma linha reta, ela é feita de vitórias e fracassos, erros e acertos, somos também mesquinhos, medrosos, inseguros, ciumentos, fracos... somos humanos. E é nessa humanidade que nos encontramos mais, que sentimos mais o valor do amor, da gentileza, que somos acolhidos, e recebemos o abraço inigualável do perdão.

Teorias psicoterápicas têm atentado para o perigo da crença na vida perfeita. Não há regra geral, o melhor caminho é olhar pra dentro de si, descobrir quem se é; erros e virtudes. Se conhecer, sem máscaras, é o passo de qualquer mudança que se queira fazer.

Não, Pessoa, você não é o único ridículo, vil e errôneo nesta terra.



domingo, 5 de agosto de 2012

Simples assim

Uma simples definição sobre o gostar de alguém vem de Nick Hornby, na voz de seu personagem Marcus, de apenas 12 anos. Will, seu amigo adulto e aprendiz na arte da vida, na arte de se relacionar, pergunta ao garoto como ele sabe que quer namorar com uma determinada garota. E o diálogo segue assim:
"- Como é que você sabe que  quer que ela seja sua namorada?(...) tá legal, você tem vontade de tocar nela? Essa tem que ser a primeira coisa.
- Não sei. Estou pensando ainda.
- Você já ouviu falar em sexo, né? É um troço meio importante.
-  Eu sei, eu não sou burro. Mas não posso acreditar que seja só isso. Porque eu não tenho certeza se quero tocar na Ellie ou não. Mas ainda tenho certeza que quero que ela seja minha namorada.
- Tá legal, então. Que coisas você quer que sejam diferentes?
- Eu quero estar com ela mais. Quero estar com ela o tempo todo,  em vez de só quando eu esbarro nela. (...) E quero contar as coisas pra ela primeiro, antes de contar pra mais ninguém.(...) Se pudesse ter todas essas coisas, não ia nem ligar se tocava nela ou não".

É... quem já provou sabe o que é isso...


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ajustando o foco

Bom, talvez vocês possam se perguntar que nome, no mínimo, incomum para um blog: máquina russa. Claro, para um blog que nada tem a ver com fotografia. Mas já tive uma máquina russa, uma Zenit, que usava filme e era toda manual, tinha que ajustar foco, abertura do diafragma... O fato é que não se tirava qualquer foto com ela, sabe? Era preciso pensar no quadro, olhar a luz, ter atenção e cuidado com o instante a ser fotografado. Então isso requeria uma outra relação com o mundo, com a paisagem... Um olhar mais atento e sensível. Assim, esse blog nasceu com o mesmo espírito de uma máquina russa: olhar o cotidiano de uma forma mais lenta, mais cuidadosa, olhar para a vida que passa tão apressada e focalizar isntantes, situações, modos de fazer as coisas, emoções, pensamentos... É isso aí, fiquem à vontade, podem entrar e tragam suas "máquinas russas" para compartilhar!